O Brasil consolidou um recorde global ao realizar o que especialistas classificam como o maior embarque de gado vivo já registrado na história, colocando mais de 27 mil bovinos em um único navio no Porto de Santos (SP) — um feito que não apenas realça a escala do agronegócio brasileiro, mas também reacende uma intensa discussão sobre os impactos éticos, econômicos e sanitários dessa modalidade de exportação, especialmente considerando que se trata do maior embarque de gado vivo do mundo.
O transporte de bovinos vivos envolve uma cadeia logística sofisticada, com mobilização de equipes no campo, transporte rodoviário especializado, embarque em instalações portuárias e deslocamento internacional. Sobressaem ainda casos de envio de animais por via aérea, com o uso de Boeings 747 cargueiros, uma opção raríssima, cara e complexa — que lembra a dimensão global e a diversidade de rotas do comércio de gado vivo.
Exportação em alta: recordes e projeções
A exportação de gado vivo no Brasil está em níveis recordes em 2025. Segundo projeções do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) compiladas por consultorias especializadas, o país pode fechar o ano com até 1,5 milhões de bovinos exportados vivos, superando significativamente os volumes dos anos anteriores e batendo recordes históricos.
Esse crescimento foi impulsionado principalmente pela demanda de países do Oriente Médio e Norte da África, como Turquia, Iraque, Marrocos e Egito, que responde por grande parte das importações de gado vivo brasileiro — um padrão que se mantém ao longo de 2025.
Adicionalmente, vale ressaltar que o Brasil se destaca por realizar o maior embarque de gado vivo do mundo, reafirmando sua posição de liderança no mercado global de exportação.
Além disso, estados tradicionalmente exportadores como Pará, Rio Grande do Sul e São Paulo intensificaram suas operações, com destaque para o crescimento do Pará na liderança nacional do embarque de animais vivos.
Da fazenda ao navio: logística monumental
As operações de exportação de gado vivo começam muito antes do embarque. Os bovinos são selecionados em fazendas ou centros de genetic improvement, passam por quarentena em Estabelecimentos de Pré-Embarque (EPEs), e então são transportados por centenas de caminhões até os portos com estrutura para embarque internacional.
O navio utilizado no recorde em Santos é um dos maiores desse segmento, com capacidade para até 30 000 bovinos. Dentro dele, a operação se assemelha a uma “fazenda flutuante”, com:
áreas de alimentação contínua;
sistemas de ventilação e climatização;
reservas de água potável e insumos;
equipes de veterinários, tratadores e auditores fiscais.
Essa estrutura é essencial para manter as condições sanitárias e minimizar o estresse dos animais em uma viagem que pode levar semanas, dependendo do destino final.
Transporte aéreo
Além do transporte marítimo, há também operações aéreas — muito menos comuns — envolvendo aviões cargueiros como o Boeing 747. Apesar do alto custo (que pode variar de US$ 50 mil a mais de US$ 1 milhão por operação), essa modalidade é usada em casos específicos, como o envio de animais com alto valor genético ou entregas emergenciais.
Um exemplo recente envolveu o transporte de 190 cabeças de gado da raça Guzerá para o Senegal, partindo de Viracopos (Campinas) a bordo de um Boeing 747 da companhia Cargolux — um movimento que chama atenção pela escala atípica para transporte aéreo de animais vivos.
Principais destinos
O Brasil não apenas bate recordes isolados, mas de acordo com dados consolidados, o país se tornou o maior exportador mundial de bovinos vivos por via marítima, superando a Austrália — tradicional líder até então. Em 2024, foram embarcados mais de 960 000 animais vivos para abate no exterior, e a tendência é que esse número continue elevando em 2025.
A maior parte desses embarques destina-se a países que realizam abates de acordo com rituais religiosos — o chamado Halal — e que preferem importar o animal vivo em vez da carne já processada. Isso é especialmente relevante para mercados como Turquia, Egito, Iraque e Marrocos, que juntos representam grande parte das compras brasileiras.
Além disso, países como Marrocos vêm se destacando como grandes importadores, com dezenas de milhares de cabeças adquiridas em 2025, reforçando a diversificação geográfica da demanda.
Impacto econômico e competitividade
A exportação de gado vivo contribui para a economia do agronegócio brasileiro, embora represente uma fatia relativamente pequena do total da pecuária. Mesmo assim, os volumes movimentados e as receitas geradas são significativos para os produtores especializados e para a balança comercial.
A competitividade é um fator-chave: os bovinos brasileiros são considerados entre os mais competitivos do mundo em preço e desempenho de exportação, o que ajuda a sustentar a crescente demanda internacional.
Além disso, países importadores frequentemente compram animais mais jovens ou com características específicas, fomentando investimentos em melhoramento genético no Brasil.
Debate sobre bem-estar animal e polêmicas éticas
Apesar do potencial econômico e da escala logística, a exportação de gado vivo tem sido alvo de fortes críticas de ONGs, parlamentares e ativistas de proteção animal.
Organizações como o Fórum Nacional de Proteção e Defesa Animal, a Gaia Libertas e o Movimento Nacional Não Exporte Vidas argumentam que viagens longas por mar são inerentemente estressantes e prejudiciais ao bem-estar dos animais, mesmo quando normas sanitárias são cumpridas.
Dados levantados por ONGs indicam que, em 2025, o Brasil quebrou seu próprio recorde com quase 1 milhão de bovinos embarcados, e há pressão pública para que a atividade seja restringida ou proibida por lei — reflexo de uma pesquisa em que 84% dos brasileiros apoiam a proibição desse tipo de exportação.
No Congresso Nacional, tramita inclusive um Projeto de Lei Complementar para alterar a legislação tributária e desestimular a exportação de animais vivos, o que reflete a dimensão política e social do debate no país.
Base legal e regulamentação
Em 2025, o Tribunal Regional Federal da 3ª Região (TRF-3) decidiu que a exportação de animais vivos não viola a legislação brasileira, reforçando que a prática deve ser regulada pelo Legislativo e que normas sanitárias já existentes não classificam automaticamente o transporte como crueldade.
As exportações são supervisionadas pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) em conjunto com órgãos internacionais que definem requisitos sanitários e de transporte para importação.
Contexto da produção brasileira de bovinos
O debate sobre exportação de gado vivo ocorre em um contexto em que o Brasil se consolidou como o maior produtor mundial de carne bovina em 2025, superando os Estados Unidos com mais de 12 milhões de toneladas métricas produzidas — um marco que reforça a importância estratégica da cadeia pecuária brasileira.
Esse desempenho global na produção de proteína animal amplia a relevância de qualquer discussão sobre modelos de exportação, agregação de valor e participação em mercados internacionais.
Oportunidades e controvérsias
O recorde de embarque de gado vivo no Porto de Santos, a possibilidade de exportar 1,5 milhão de animais em 2025, e o uso de rotas marítimas e aéreas mostram que o Brasil é um protagonista global nessa modalidade de comércio.
No entanto, o modelo enfrenta um debate intenso e crescente que envolve:
Bem-estar animal e ética
Regulamentação sanitária e legal
Impacto econômico e agregado de valor
Preferências e pressões de mercados consumidores
A grande questão para o setor agora é como equilibrar a expansão comercial com práticas mais sustentáveis e alinhadas às expectativas sociais e ambientais — além de avaliar se outras formas de agregar valor (como exportar carne processada) podem trazer maior retorno econômico.

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