Raízen (RAIZ4) enfrenta severa crise após decisões estratégicas questionáveis da nova gestão, resultando em queda drástica de valor e dívida bilionária.
A Raízen (RAIZ4), outrora aclamada na bolsa de valores com uma avaliação de R$ 76 bilhões e promessas de liderar a revolução dos combustíveis verdes, agora se encontra em uma situação delicada. A tese de investimentos ESG e o etanol de segunda geração (E2G) esbarraram em obstáculos como o arrefecimento do apetite global e a ascensão do etanol de milho, mais acessível.
Quatro anos e meio após seu IPO, a joint venture entre Cosan (CSAN3) e Shell viu seu valor de mercado despencar 89%, transformando-se em uma penny stock. Paralelamente, a companhia acumulou uma dívida bilionária, fruto de um ciclo de aquisições agressivas. A atual gestão busca reverter esse quadro com reestruturação e foco na redução da alavancagem, mas o mercado permanece cético.
Esforços de desinvestimento, incluindo a venda de usinas, já somam cerca de US$ 5 bilhões, com planos de alienar ativos na Argentina. Contudo, mesmo com a Selic elevada e um cenário desafiador para açúcar e etanol, essas vendas não foram suficientes para reduzir a dívida líquida e a alavancagem. Conforme informações divulgadas pelo Money Times, a percepção é de que a entrada de um novo sócio é crucial para a Raízen (RAIZ4) lidar com este cenário complexo.
O Fim da “Veia Shell” e o Desmonte do Trading
Fontes próximas à Raízen (RAIZ4) apontam o desmonte da área de trading como uma das decisões mais prejudiciais da nova gestão. Historicamente ligada à cultura da Shell e vista como uma importante geradora de valor, essa área foi drasticamente reduzida e rebatizada como “supply” em um movimento agressivo de corte de custos.
A Raízen (RAIZ4), ao atuar como grande produtora e compradora, possuía capacidade de capturar valor não apenas na produção, mas também na negociação de commodities como açúcar, etanol, diesel, gasolina e energia elétrica. Essa atuação conferia à empresa o perfil de um player ativo de mercado, e não apenas de uma operadora industrial.
A chegada do CEO Nelson Gomes, com vasta experiência na ExxonMobil e conhecido por sua disciplina operacional e rigor no controle de custos, contrastou com a vocação histórica da Shell para o trading. Para a Shell, negociar commodities é central em seu DNA, uma herança incorporada pela Raízen (RAIZ4).
Na safra 2023/2024, cerca de R$ 3 bilhões do Ebitda da Raízen (RAIZ4) vieram do trading de açúcar, etanol e energia elétrica. A extinção dessa área, segundo fontes, representou um erro grave e uma perda estrutural de valor, especialmente em períodos de alta volatilidade. A empresa abriu mão da capacidade de gerar resultados adicionais além da produção industrial.
No entanto, um analista ouvido pela reportagem discorda, avaliando que o encerramento do trading foi uma decisão correta por ser uma atividade fora do core business da companhia. Para ele, a Raízen (RAIZ4) se aproxima de um modelo mais simples, embora a empresa ainda possua ativos complexos e operacionalmente inferiores aos de seus pares, e o fim do trading, por si só, não resolve o problema.
Eliminação do Risco Sacado e Impacto nas Margens de Combustíveis
Outra mudança estrutural apontada como equivocada pela nova gestão da Raízen (RAIZ4) refere-se à eliminação do uso do risco sacado, uma prática ligada à gestão de capital de giro. A Petrobras era a principal fornecedora de combustíveis da Raízen (RAIZ4), com compras mensais expressivas.
O risco sacado, intermediado por bancos, permitia que a Petrobras recebesse à vista, enquanto a Raízen (RAIZ4) negociava prazos mais longos com os bancos. Esse instrumento chegou a representar cerca de R$ 12 bilhões em financiamento bancário, substituindo o crédito antes concedido pelo fornecedor.
A atual gestão decidiu encerrar o uso do risco sacado por receio de que essa dívida pudesse ser caracterizada como passível de incidência de IOF. Essa mudança provocou um aumento quase automático da dívida, pois a companhia passou a utilizar seu próprio caixa para pagar fornecedores à vista, alterando estruturalmente seu balanço.
Embora a compra à vista e os descontos maiores tenham reduzido o custo unitário do diesel e da gasolina, melhorando teoricamente as margens do segmento de distribuição, esse ganho não se materializou. Fontes explicam que, quando esse ganho de custo não é bem gerenciado, ele acaba sendo repassado ao revendedor, com o mercado absorvendo a vantagem e a empresa deixando dinheiro na mesa.
Segundo interlocutores, a Raízen (RAIZ4) não conseguiu capturar uma vantagem competitiva frente aos concorrentes. O corte de custos levou à saída de profissionais experientes, o que pode ter contribuído para decisões equivocadas na gestão de preços e no relacionamento com fornecedores estratégicos, como a Petrobras.
Mudanças Estratégicas e Perda de Convicção no Longo Prazo
As mesmas fontes apontam que a venda de usinas reduz a disponibilidade de biomassa para bioeletricidade e limita a oferta de açúcar e etanol, enfraquecendo a posição estratégica da Raízen (RAIZ4).
A lógica atual de se desfazer de negócios mais voláteis e ativos industriais torna os resultados mais previsíveis, mas também sinaliza uma perda de convicção no crescimento de longo prazo, especialmente em projetos como o etanol de segunda geração. O sentimento predominante é de que esses movimentos preparam a Raízen (RAIZ4) para uma eventual venda, levantando a questão sobre quem estaria disposto a adquirir a companhia nessa situação.
A Raízen (RAIZ4) informou que está em período de silêncio e não comentará o assunto.

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