Fed adia corte de juros e acende alerta no mercado: inflação persistente e choques políticos em foco
A ata da última reunião de janeiro do Federal Reserve (Fed), o banco central dos Estados Unidos, trouxe um tom de cautela que impactou diretamente as expectativas do mercado. O documento reforçou a preocupação com a inflação, que ainda se encontra acima da meta de 2%, e indicou que o caminho para a desinflação pode ser mais longo e irregular do que se imaginava.
Com isso, o Fed sinaliza a necessidade de mais evidências consistentes sobre a trajetória da inflação antes de considerar qualquer alteração na taxa de juros. A política monetária, portanto, não segue um curso pré-determinado, mas sim atenta aos dados econômicos. Caso a inflação volte a dar sinais de aceleração, ajustes para cima na taxa de juros podem ser considerados, aumentando a incerteza.
Essa postura mais conservadora do Fed reflete um cenário complexo, onde fatores como as políticas tarifárias de Donald Trump adicionam uma camada de incerteza aos preços. A autoridade monetária tem buscado equilibrar seu mandato duplo de controle da inflação e manutenção do pleno emprego, mas o dilema se intensifica com a persistência inflacionária e os sinais de arrefecimento no mercado de trabalho.
Inflação segue como principal preocupação para o Fed
A ata divulgada pelo Federal Reserve destacou que, apesar da desaceleração observada desde os picos de 2022, os preços nos Estados Unidos permanecem acima da meta de 2%. O risco de uma inflação persistentemente elevada ainda é considerado significativo, o que justifica a cautela do banco central.
O documento apontou que parte das pressões recentes sobre os preços veio do setor de bens, influenciado pelas tarifas comerciais. Já o setor de serviços, especialmente o de habitação, tem apresentado uma desaceleração mais gradual, mas ainda assim contribui para a manutenção da inflação em níveis elevados.
Bruno Shahini, especialista em investimentos da Nomad, explica que o Fed precisa encontrar um equilíbrio delicado entre seus mandatos. Enquanto os preços teimam em continuar altos, o mercado de trabalho começa a mostrar sinais de perda de força, embora a taxa de desemprego permaneça em patamares historicamente baixos, em torno de 4,4%. Essa situação criaria um cenário ideal para o corte de juros, visando estimular a economia.
Choques políticos e tarifas aumentam a incerteza
A ata do Fed também reconhece os riscos adicionais que o ambiente econômico e político impõe ao processo de desinflação. As políticas do executivo, como as tarifas comerciais e restrições migratórias, são vistas como choques que dificultam a previsão do Fed.
As tarifas comerciais, por exemplo, aumentam os custos de produção e podem ser repassadas aos consumidores, pressionando os preços. Estímulos fiscais ampliam a demanda agregada, enquanto restrições migratórias podem reduzir a oferta de mão de obra, elevando salários e custos de produção em uma economia ainda robusta.
Esses distúrbios atuam tanto pela oferta quanto pela demanda agregada, tornando o cenário inflacionário mais complexo. Shahini ressalta que os riscos de uma aceleração ou repique na inflação não são poucos, o que reforça a necessidade de cautela por parte do Fed.
Mercado projeta corte de juros a partir de junho
Apesar da cautela do Fed, o mercado financeiro já começa a projetar o início da flexibilização monetária, mas sem expectativas para a reunião de março. A ferramenta FedWatch, do CME Group, indica uma probabilidade de 94,1% de manutenção da taxa atual, com apenas 5,9% de chance de corte.
No entanto, Shahini aponta que o mercado precifica cerca de 50 pontos-base de corte nos juros ao longo do ano, o que significaria dois cortes de 25 pontos-base cada, com início previsto para junho. Essa expectativa está ligada à possível indicação de Kevin Warsh, um nome com perfil mais inclinado ao combate firme da inflação, para a presidência do Fed em maio de 2026.
A entrada de um nome com esse viés pode reforçar um ambiente de juros elevados por mais tempo, especialmente em um contexto de inflação persistente. Contudo, Shahini pondera que qualquer mudança relevante dependerá do contexto macroeconômico no momento da transição, já que o Fed atua de forma colegiada e condiciona suas decisões aos indicadores econômicos. Movimentos fora do esperado e sem respaldo nos fundamentos podem gerar instabilidade no mercado.

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