Brasil, gigante do açúcar, mas refém de preços globais: entenda o paradoxo e as saídas apontadas por especialista
O Brasil ostenta a posição de maior produtor mundial de açúcar, respondendo por uma fatia expressiva do comércio internacional da commodity. No entanto, essa relevância não se traduz em poder de formação de preços, deixando o país na condição de ‘tomador de preço’, semelhante à dinâmica da Opep no mercado de petróleo. A situação levanta questionamentos sobre a estratégia brasileira no setor.
Apesar de liderar o mercado com eficiência logística e qualidade reconhecida, o açúcar brasileiro frequentemente é comercializado com preços abaixo da média global e até com desconto. Essa realidade contrasta com a influência que o país exerce no suprimento mundial, gerando um debate sobre como reverter esse cenário e agregar mais valor ao produto.
A análise sugere que a falta de coordenação estratégica nas exportações e a ausência de acordos bilaterais mais vantajosos, como os que favorecem concorrentes, são fatores cruciais. A perspectiva de acordos comerciais, como o Mercosul-União Europeia, pode trazer novas dinâmicas, mas a questão central reside na gestão e negociação do produto brasileiro no cenário internacional.
O peso do Brasil no mercado de açúcar versus a Opep no petróleo
O Brasil é, inegavelmente, o grande protagonista no mercado global de açúcar. O país não apenas lidera a produção mundial, mas também responde por cerca de dois terços do fluxo comercial internacional da commodity. Para se ter uma dimensão dessa força, o ex-CEO da Raízen, Ricardo Mussa, compara a relevância brasileira para o açúcar com a da Opep para o petróleo. A organização dos países exportadores de petróleo, por exemplo, controla entre 44% e 46% das exportações globais de petróleo cru, e aproximadamente 60% de todo o comércio de petróleo mundial, incluindo derivados.
Apesar dessa dominância, Mussa destaca um paradoxo: “Mesmo com toda essa representatividade, não somos price makers (formadores de preço), mas price takers (tomadores de preço)”. Ele lamenta que, com a qualidade e a eficiência logística que o Brasil oferece, o país deveria ter um prêmio, mas, na prática, enfrenta alguns dos piores preços do mercado, muitas vezes vendendo com desconto.
A falta de coordenação e a precificação desfavorável do açúcar brasileiro
Um dos principais entraves apontados por Ricardo Mussa para a precificação desfavorável do açúcar brasileiro é a ausência de coordenação estratégica nas exportações. Ele acredita que o mercado de açúcar poderia ser melhor administrado, com um envolvimento mais ativo do Ministério da Agricultura, por exemplo. Mussa faz um paralelo com o mercado de potássio no Canadá, onde o governo auxiliou na organização das empresas para uma exportação mais coordenada, fortalecendo o poder de negociação internacional.
A dificuldade em acessar mercados como o do Japão, que favorece o açúcar tailandês devido a acordos bilaterais mais vantajosos, exemplifica o desafio. A falta de uma estratégia unificada impede que o Brasil capitalize plenamente sua posição de liderança, resultando em perdas de valor que poderiam ser revertidas em benefícios econômicos mais amplos para o agronegócio e para o país.
Acordo Mercosul-UE e o potencial para disciplinar o mercado europeu
O executivo vê o acordo entre Mercosul e União Europeia como uma oportunidade para o açúcar brasileiro. A expectativa é que o acordo abra espaço para negociações mais equilibradas e coloque os acordos bilaterais e multilaterais no centro das discussões comerciais. Historicamente, o mercado europeu, altamente protegido e com forte subsídio à produção de beterraba, tem sido de difícil acesso para o Brasil, e a política agrícola europeia frequentemente gerou excedentes que pressionaram os preços globais.
Com regras mais claras decorrentes do acordo, Mussa acredita que a competitividade do produtor europeu no mercado internacional será reduzida, diminuindo as distorções atuais. “Isso disciplina melhor o mercado europeu, para que ele deixe de ser um exportador de açúcar quando, estruturalmente, nunca deveria ser. Vejo essa influência da Europa sobre os preços internacionais diminuindo ao longo dos anos”, conclui, indicando um potencial futuro de maior equilíbrio no mercado global de açúcar.

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