Ministério da Agricultura prevê abertura para carne bovina ao Japão em 2026 e trata cotas da China com naturalidade
Um antigo sonho do setor de proteínas do Brasil, a abertura das exportações de carne bovina para o Japão, que se arrasta há 24 anos, parece cada vez mais próxima de se concretizar. Segundo Luis Rua, secretário de Comércio e Relações Internacionais do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), uma auditoria sanitária crucial está prevista para ocorrer no Brasil em março.
Este avanço representa um marco importante, após anos de negociações para superar barreiras que impediam o acesso ao mercado japonês. A expectativa é que, após a auditoria e o cumprimento de etapas protocolares, o Brasil possa iniciar suas exportações de carne bovina para o Japão ainda em 2026.
A declaração foi feita ao portal Money Times, onde Rua expressou orgulho pela conquista e destacou a importância estratégica deste novo mercado, mesmo reconhecendo a magnitude da China em termos de volume. O secretário também abordou a questão das cotas impostas pela China, tratando-as com naturalidade e explicando a visão do ministério sobre a defesa comercial chinesa.
Diversificação de Mercados como Estratégia Chave
Luis Rua ressaltou que, além da expectativa de abertura para o Japão, o Ministério da Agricultura tem trabalhado ativamente na conquista de outros mercados importantes. O objetivo é diversificar os destinos das exportações brasileiras, especialmente em face das salvaguardas adotadas pela China para suas importações de carne bovina.
Mercados como Filipinas, Indonésia e Vietnã já tiveram suas portas abertas para a carne bovina brasileira, incluindo cortes com osso e miúdos. Para o Vietnã, em particular, o número de plantas habilitadas dobrou, passando de quatro para oito, com novas aberturas em andamento. A Guatemala também se tornou um novo destino, com uma missão prevista para habilitar as primeiras plantas brasileiras.
Essa estratégia de diversificação é fundamental para reduzir a dependência de um único mercado e garantir a estabilidade e o crescimento do setor exportador de carne bovina brasileiro, promovendo um avanço considerado exponencial pelo secretário.
Abordagem Tranquila sobre as Cotas da China
A decisão da China de implementar salvaguardas para suas importações de carne bovina é vista por Luis Rua como um mecanismo legítimo de defesa comercial por parte do país asiático. Ele minimizou o impacto brusco da medida no setor brasileiro, explicando que a China buscou proteger seus produtores locais.
O Brasil tem mantido discussões com a China para defender os interesses dos seus exportadores. Rua lembrou que o ano de 2025 foi atípico para os embarques para a China, devido ao redirecionamento de volumes que antes iam para os Estados Unidos, impactados por tarifas. Historicamente, as exportações brasileiras para a China giram em torno de 1,2 milhão de toneladas.
Em 2025, o Brasil registrou um recorde, enviando cerca de 1,65 a 1,68 milhão de toneladas para a China, consolidando o país como o principal destino, representando quase 45-48% do volume total exportado. Para este ano, o Brasil conta com uma cota de exportação de 1,106 milhão de toneladas sem tarifas adicionais, com volumes previstos de 1,128 milhão em 2027 e 1,154 milhão em 2028.
Proposta de Absorção de Cotas e o Mercado Interno
O secretário Luis Rua revelou que o Brasil propôs à China a possibilidade de absorver a cota de outros países que não consigam cumprir seus contingentes estabelecidos. A resposta chinesa ainda está sendo aguardada, pois é o primeiro ano da medida e o país asiático pode querer avaliar os efeitos na oferta, demanda e preços antes de tomar uma decisão.
Apesar do contexto das salvaguardas, as exportações de carne bovina para a China em 2025 apresentaram um crescimento expressivo de 41% em receita e 21% em volume, um desempenho considerado “estrondoso” pelo secretário.
Rua fez questão de ressaltar que o principal cliente do agronegócio brasileiro é o próprio consumidor do país. Cerca de 70% do volume de carnes fica no mercado doméstico, com os 30% restantes sendo exportados. No caso da carne bovina, cortes do dianteiro e miúdos, que não são tão consumidos tradicionalmente no Brasil, são enviados para o exterior, o que contribui para a composição de custos e para a oferta estável e crescente ao consumidor brasileiro.
Discussões sobre o Modelo da Cota Hilton para Exportações
Diante do anúncio das cotas chinesas, o setor frigorífico brasileiro solicitou ao Governo Federal a adoção de um modelo semelhante à cota Hilton para as exportações. A cota Hilton, criada em 1979, estabelece um limite de exportação de cortes bovinos de alta qualidade para a União Europeia.
Luis Rua confirmou que a proposta está em discussão conjunta entre o setor público e privado. Ele ponderou que o volume da cota Hilton (10 mil toneladas) é significativamente menor que as cotas estabelecidas pela China. O objetivo é encontrar um mecanismo de controle que evite distúrbios de mercado e mantenha a estabilidade do setor, que atualmente se encontra em um patamar considerado bom.

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