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Itaú BBA: Produtor Rural Colhe Mais para Pagar Contas, Recuperações Judiciais em Alta no Agro

Itaú BBA alerta para cenário desafiador no agronegócio brasileiro, com aumento de recuperações judiciais e margens apertadas para produtores.

O setor do agronegócio brasileiro enfrenta um período de grande tensão, segundo análise do Itaú BBA. A combinação de preços baixos para commodities, custos elevados com insumos e juros altos está levando muitos produtores a colherem mais apenas para cobrir suas despesas, aumentando o risco de novas recuperações judiciais.

A valorização do real frente ao dólar também agrava a situação, pressionando ainda mais as margens dos produtores. Especialistas apontam que a gestão de riscos e a organização financeira são cruciais para navegar neste cenário complexo.

A consultoria Agro do Itaú BBA, representada pelo gerente Cesar de Castro Alves e pelo analista Francisco Queiroz, detalhou as perspectivas para as principais culturas e setores, destacando as particularidades de cada um. As informações foram compartilhadas com o Money Times.

Commodities em baixa e custos altos: a receita para a dificuldade

O ciclo atual de preços das commodities agrícolas, especialmente soja e milho, preocupa o Itaú BBA. A perspectiva de boas safras no Brasil e no exterior, somada a um cenário de câmbio desfavorável com a valorização do real, pressiona as margens dos produtores. Cesar de Castro Alves explica que a combinação de preços mais baixos para grãos com o custo elevado de fertilizantes, que subiram significativamente no último ano, colocou o produtor em uma situação delicada.

“Em muitos casos, ele está praticamente colhendo mais apenas para pagar a conta. Vamos enfrentar mais um ciclo difícil”, afirma Alves. Ele acrescenta que, em algumas situações, compromissos financeiros e contratos de arrendamento não deixam margem alguma ao produtor ao final da safra, tornando a gestão financeira ainda mais crítica.

Milho se destaca, mas soja e algodão enfrentam adversidades

Na análise dos especialistas, o milho apresenta um quadro menos adverso que a soja. O cereal se beneficia de um mercado doméstico mais dinâmico e de uma demanda robusta, impulsionada pela indústria de etanol de milho, o que ajuda a sustentar os preços. No entanto, Alves ressalta que a forte alta dos preços do milho vista no ano passado, que ajudou a compensar margens fracas da soja, pode não se repetir.

“A safrinha foi muito boa e os estoques estão em níveis confortáveis. Os grãos, de forma geral, ainda nos preocupam”, pontua Alves. Para os preços dos grãos, pontos de atenção incluem a definição de novos mandatos de biocombustíveis nos Estados Unidos e as incertezas sobre a demanda chinesa por soja norte-americana.

O algodão também atravessa um momento desafiador. O setor lida com um mercado global bem abastecido após boas safras nos Estados Unidos, China e Brasil, além de uma demanda mundial enfraquecida pelo ritmo mais moderado da economia global. Francisco Queiroz aponta que a pressão sobre o preço do petróleo favorece a competitividade das fibras sintéticas, que podem substituir, ainda que em menor escala, as fibras naturais.

Café e proteínas animais navegam em águas mais calmas

Em contraste com a soja, milho e algodão, o café apresenta um cenário mais favorável. Apesar de alguma redução nas margens, o Itaú BBA não espera uma queda acentuada nos preços, pois o aumento previsto na oferta não é suficiente para desequilibrar o mercado. Alves prevê um alívio nos preços a partir de abril ou maio, com o início do novo ciclo.

O cenário também é positivo para as proteínas animais, como aves, suínos e ovos. Estes setores são beneficiados pelos preços mais baixos de soja e milho, que são insumos chave para a ração animal. “Além de uma estrutura de custos favorável, os setores de aves e suínos vêm exportando muito bem. A perspectiva é de mais um ano de embarques fortes e margens bastante atrativas”, destaca o gerente.

Pecuária bovina: ciclo em virada e incertezas externas

A pecuária bovina começa a sentir os efeitos da inversão do ciclo pecuário, com expectativa de redução na oferta de animais e, consequentemente, preços mais elevados para a arroba. Contudo, incertezas com as exportações para a China, devido a salvaguardas impostas, geram dúvidas sobre o ritmo dos embarques.

O Itaú BBA vê fatores que mitigam esse risco, como a menor produção doméstica prevista e a possibilidade de abertura ou ampliação de mercados. “Outros exportadores de carne bovina dificilmente conseguirão cumprir integralmente suas cotas, e o Brasil trabalha para ocupar esse espaço”, afirma Alves. Ele complementa que a pressão prolongada no mercado do boi apenas pela estratégia chinesa é difícil de imaginar, e a expectativa é de preços mais altos neste ano, com sinais já aparecendo no mercado de bezerros e bois magros.

O agronegócio não está em crise, mas sob forte tensão

Cesar de Castro Alves é categórico ao afirmar que o agronegócio, como um todo, não está em crise, pois existem produtores em bom momento. No entanto, o setor está sob forte tensão devido à combinação de produção elevada, preços baixos, custos crescentes, apreciação cambial e, principalmente, juros elevados.

“O juro alto asfixia a última linha do produtor rural e consome grande parte da margem Ebitda. Isso dificulta o carrego da commodity, novos investimentos e a renovação de máquinas”, explica Alves. Ele ressalta que, apesar disso, espera-se um ano positivo para as exportações, mas quem mais sofre neste ambiente é o produtor mal organizado.

Recomendações para o produtor rural

Os analistas do Itaú BBA aconselham o produtor a não apostar exclusivamente em uma alta de preços. Eles observam um ciclo de comercialização atrasada, com muitos produtores esperando uma recuperação que não se concretiza. Os preços caíram e podem recuar ainda mais, especialmente com o risco cambial e um dólar global mais fraco.

Alves alerta que a tendência é de pressão adicional com o avanço da colheita, reforçando a importância da gestão de riscos. “O produtor deveria ter negociado volumes maiores ao longo do tempo. Agora, quem não vendeu nada enfrenta duas alternativas difíceis: vender a soja a preços baixos no pico da safra, com prêmios pressionados, ou carregar o produto pagando juros elevados até o segundo semestre”, conclui.

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