Inadimplência no rotativo do cartão de crédito atinge pico histórico em 2025, desafiando expectativas econômicas
O ano de 2025 registrou um cenário econômico surpreendente, com a inadimplência no rotativo do cartão de crédito alcançando um recorde histórico, mesmo em um contexto de baixo desemprego e aumento da massa salarial. Dados do Banco Central (BC) revelam que a taxa de inadimplência no rotativo saltou de 55% em janeiro para impressionantes 64,7% em dezembro, um aumento de 10 pontos percentuais.
Essa escalada da inadimplência ocorre em paralelo a um mercado de trabalho aquecido, que fechou o ano com a menor taxa de desemprego desde 2012, registrando 5,6%. Adicionalmente, a renda média real dos brasileiros apresentou um crescimento de 5,7%, atingindo R$ 3.560, segundo o IBGE. A aparente contradição entre a melhora nos indicadores macroeconômicos e o aumento do endividamento tem gerado preocupação entre especialistas.
Para desvendar esse paradoxo, consultamos economistas e planejadores financeiros. As análises apontam para uma complexa interação de fatores, incluindo a expansão do crédito facilitada pelo aumento da renda, o crescimento do custo de vida e a desigualdade na distribuição dos ganhos. Conforme informação divulgada pelo Banco Central e IBGE, o cenário exige uma análise aprofundada das finanças familiares.
Maior Renda, Mais Crédito, Mais Dívida
Segundo Jeff Patzlaff, planejador financeiro CFP, o próprio aumento da renda pode ter contribuído para o endividamento. Com a comprovação de renda e estabilidade no emprego, instituições financeiras ampliaram os limites de crédito, incentivando o consumo e o comprometimento financeiro de longo prazo.
“As pessoas acabam usando o cartão como uma extensão do salário, baseadas na confiança de que vão manter o emprego. No entanto, os juros compostos cresceram mais rápido do que os aumentos reais”, explica Patzlaff. Ele ressalta que o aumento do custo de vida, com elevação nos preços de itens essenciais como saúde, educação e alimentos, também pressiona o orçamento familiar.
Virgínia Izabel Oliveira, professora associada da Fundação Dom Cabral (FDC), complementa que o acréscimo de renda, em muitos casos, não foi suficiente para equilibrar as contas, especialmente para aqueles que já possuíam dívidas anteriores. A necessidade de manter o padrão de vida leva ao uso do limite do cartão de crédito como um complemento de renda, alimentando o ciclo de endividamento.
Desigualdade na Renda Mascara a Realidade Financeira
A melhora nos indicadores de emprego e renda não foi homogênea. Virgínia Oliveira destaca que os bons resultados foram impulsionados pela formalização em setores específicos e por trabalhadores de maior renda. Enquanto isso, a base da pirâmide social continuou a enfrentar uma inflação persistente em itens essenciais.
Antonio Pontes, diretor de estratégia da The Hill Capital, alerta para a metodologia do IBGE, que considera “ocupada” qualquer pessoa que tenha trabalhado por ao menos uma hora na semana de referência. Isso inclui trabalhos informais e bicos, o que pode mascarar a real segurança financeira da população.
“Muitos beneficiários de programas sociais que fazem trabalhos esporádicos são contabilizados como ‘empregados’, mesmo sem uma renda formal estável”, afirma Pontes. Essa instabilidade leva muitos a recorrerem ao cartão de crédito para cobrir despesas básicas, e quando a fatura vence, a falta de renda suficiente impede o pagamento integral, jogando o consumidor diretamente no rotativo.
Juros Extorsivos do Rotativo do Cartão
O rotativo do cartão de crédito se consolidou como a linha de crédito mais cara do mercado em 2025. Os juros médios chegaram a 438% ao ano em dezembro, um patamar alarmante se comparado à média histórica de cerca de 40,3%. Essa diferença de 24 pontos percentuais acima da média indica uma deterioração estrutural na saúde financeira das famílias.
Para contextualizar, uma dívida de R$ 1.000 no rotativo pode se transformar em R$ 5.530 em apenas um ano, devido aos juros. Essa modalidade é significativamente mais cara que outras linhas de crédito, como o crédito parcelado (189%), cheque especial (138,6%) e crédito não consignado (116,8%), segundo dados do BC.
“Não há nenhum investimento que remunere o dinheiro a essa taxa, então é altamente arriscado não pagar a fatura total do cartão”, alerta Virgínia Oliveira. Ela enfatiza que, ao entrar no rotativo, a tendência é que a dívida se acumule exponencialmente, tornando a saída do ciclo de endividamento cada vez mais difícil.
Perspectivas para 2026: Desaceleração e Dívidas Pendentes
As projeções para 2026 indicam uma desaceleração no crescimento do PIB, com estimativas de 1,8%. Embora a queda na inflação e a possível redução da taxa de juros possam trazer algum alívio, o estoque de dívidas contraídas com juros exorbitantes em 2025 representa um risco significativo.
Jeff Patzlaff prevê um cenário desafiador, com o “efeito bola de neve” dos juros do rotativo podendo levar parte da população ao colapso financeiro. A recomendação é a busca imediata por renegociações de dívidas, priorizando modalidades mais baratas e a formação de uma reserva de emergência.
A qualquer oscilação no nível de emprego em 2026, as famílias já endividadas e alavancadas podem enfrentar dificuldades extremas para honrar seus compromissos financeiros.

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