Uma conversa aparentemente inofensiva com o ChatGPT quase custou um negócio imobiliário de US$ 50 milhões (aproximadamente R$ 250 milhões) em Nova York. O renomado corretor de imóveis Ryan Serhant, fundador e CEO da Serhant, compartilhou a história durante a conferência Brainstorm Tech da Fortune, revelando os perigos de confiar cegamente em inteligência artificial para decisões financeiras cruciais.
A IA, embora uma ferramenta poderosa, pode recorrer a fontes duvidosas ou apresentar informações de forma superficial. Serhant relembrou um caso envolvendo a venda de uma cobertura de luxo na cidade, um imóvel notoriamente difícil de precificar por falta de comparações diretas no mercado. Após uma negociação intensa, comparada por ele a um duelo entre ‘reis do mundo’, o acordo foi fechado em exatos US$ 50 milhões.
No entanto, o negócio esteve à beira do colapso na última hora. Segundo Serhant, o comprador, curioso, decidiu consultar o ChatGPT com uma pergunta simples: “Estou pensando em comprar isto; US$ 50 milhões é caro demais?”. A resposta do chatbot foi um direto ‘sim’, levando o corretor do comprador a contatar Serhant para desistir da transação, alegando que a IA havia determinado que o imóvel não valia o preço.
O Impacto de um ‘Sim’ e um ‘Não’ da Inteligência Artificial
A reação de Serhant foi imediata e contundente. Ele classificou a atitude como “uma burrice” e “estúpida”, questionando se o cliente, descrito como “extremamente inteligente e rico”, não estava utilizando dados concretos de mercado. O corretor do comprador, por sua vez, expressou perplexidade, afirmando que “uma superinteligência acabou de dizer a ele: ‘Não faça isso, não vale a pena'”.
Diante da situação, Serhant precisou transmitir a má notícia ao seu cliente. De forma semelhante, o vendedor também recorreu ao ChatGPT, mas com uma pergunta inversa: “Tenho um comprador que não quer mais pagar [US$ 50 milhões] porque você disse para ele não fazer isso. US$ 50 milhões é pouco?”. Surpreendentemente, o ChatGPT mudou sua resposta, concordando que o valor era, de fato, baixo.
A Solução: Conhecimento Humano e Dados de Mercado
Para salvar o negócio, a solução não veio da IA, mas sim do retorno à pesquisa tradicional. Serhant enfatizou a importância de recorrer a “contexto e dados de negociações fora do mercado que os LLMs [grandes modelos de linguagem] não conseguem coletar”. Esses dados, muitas vezes não acessíveis pela internet ou pelos modelos de IA, foram cruciais para reverter a situação.
Ele também compartilhou o episódio em um vídeo nas redes sociais, que rapidamente viralizou, acumulando 3 milhões de visualizações em poucas horas. Ambos os clientes assistiram ao vídeo, retornaram à mesa de negociação e, felizmente, o acordo foi concluído. Serhant ressaltou que os modelos de IA “conhecem a história da internet, mas não conhecem o caminho à frente, nem sabem aquilo que a internet, o Reddit, o Zillow e o Realtor.com não sabem”.
IA vs. Corretores Imobiliários: Um Debate em Andamento
Essa história se insere em um debate mais amplo sobre o papel da IA no mercado imobiliário. Enquanto alguns, como o professor Andrew C. Spieler da Universidade Hofstra, sugerem que corretores estão se tornando mais parecidos com agentes de viagem devido à vasta disponibilidade de informações online, Serhant discorda veementemente.
Serhant argumenta que corretores, especialmente para clientes de alto patrimônio, continuam sendo essenciais. Eles oferecem orientação, apoio e responsabilidade, um papel que a IA, em sua visão, não pode assumir. “As pessoas odeiam que tentem vender algo para elas”, disse Serhant, “mas adoram fazer compras com amigos”. A experiência com o ChatGPT, apesar do susto, acabou se tornando um exemplo de como a expertise humana e a análise aprofundada de dados superam as limitações da inteligência artificial no fechamento de negócios complexos.

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