O colapso do modelo de tesourarias de cripto: um alerta para o mercado financeiro
O sonho de transformar empresas em verdadeiras máquinas de acumulação de Bitcoin e outras criptomoedas, utilizando veículos como as SPACs (empresas de cheque em branco), parece ter chegado ao fim. O modelo, que ganhou força com o sucesso inicial da MicroStrategy, agora enfrenta um cenário desolador, com acordos desfeitos e desvalorização acentuada de ações.
A pressão dos investidores, somada à queda acentuada dos ativos digitais desde o anúncio de fusões, tornou operações antes promissoras financeiramente inviáveis. A situação expõe a fragilidade de empresas que apostaram unicamente na valorização de criptoativos, sem um modelo de negócios robusto e diversificado.
O caso da ReserveOne, que teve seu acordo de fusão de US$ 1 bilhão com a SPAC M3-Brigade Acquisition V Corp. cancelado devido à exigência de investidores, é emblemático. A desvalorização do Bitcoin e de outros tokens desde a negociação inicial corroeu o valor esperado das ações após a listagem, tornando a operação insustentável. As informações foram divulgadas pela Bloomberg.
O fracasso da ReserveOne e o efeito dominó nas SPACs de cripto
A decisão de pelo menos dois grandes investidores da ReserveOne de exigir o cancelamento da venda selou o destino da fusão. Eles temiam que as ações da companhia fossem negociadas com desconto em relação ao valor patrimonial líquido após a listagem, cenário agravado pelas taxas de intermediação. A oficialização do encerramento do acordo em 12 de junho marcou o fim de uma aposta de alto risco.
O insucesso da transação ReserveOne-M3 não é um caso isolado. Outras empresas com planos semelhantes enfrentam dificuldades ou já registraram desempenho pífio após a estreia no mercado. A Avalanche Treasury, por exemplo, viu suas ações recuarem quase 90% em relação ao valor do dia em que os acionistas aprovaram a combinação, negociando a cerca de US$ 0,85.
A estratégia de Michael Saylor e seus imitadores em xeque
Michael Saylor, CEO da MicroStrategy (hoje Strategy), foi o pioneiro em transformar sua empresa em uma acumuladora de Bitcoin em 2020. A estratégia rendeu frutos inicialmente, com as ações da empresa chegando a superar US$ 500 em 2024. No entanto, o cenário atual é drasticamente diferente.
Atualmente, as ações da Strategy fecham a US$ 112,53, e o próprio Bitcoin acumula queda de cerca de 50% desde o pico de outubro passado. Essa desvalorização deixou empresas como Metaplanet, BitMine, Twenty One Capital e SharpLink, que adotaram a mesma abordagem, em situação delicada.
O futuro incerto das tesourarias de cripto e a pressão por modelos sustentáveis
A BSTR Holdings, ligada à Cantor Fitzgerald em uma transação que poderia chegar a US$ 1,5 bilhão, também enfrenta um futuro incerto. Uma votação sobre a continuidade da fusão está agendada para 26 de junho, mas o resultado é incerto. A pressão de investidores como a Meteora Capital, que participou de ambas as operações (BSTR e ReserveOne) via PIPE, tem sido intensa pela não conclusão dos negócios.
Conforme dados da Artemis, as tesourarias de cripto com ações já negociadas em bolsa acumularam perda de cerca de US$ 62 bilhões em valor de mercado entre o pico do Bitcoin em outubro e o início de junho. Especialistas como Jan-Philip Grabs, da consultoria Areta, acreditam que o mercado em baixa funcionará como um filtro, separando empresas com modelos operacionais genuínos daquelas que dependem apenas de veículos de mercado de capitais.
Alexander Blume, CEO da gestora de criptoativos Two Prime, reforça a visão de que apenas empresas com operações reais no setor de ativos digitais sobreviverão a longo prazo. O modelo de acumular criptomoedas via emissão de ações, que antes parecia uma estratégia vencedora, mostra-se agora insustentável para muitas empresas, especialmente aquelas que não possuem um negócio subjacente robusto.

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