O debate sobre o retorno ao escritório ganha nova perspectiva, saindo da esfera de controle para se consolidar como um pilar de aprendizado e desenvolvimento.
Por anos, a discussão sobre o trabalho remoto se resumiu a um embate entre produtividade e autonomia. Empresas clamavam pela volta ao escritório, enquanto profissionais defendiam a flexibilidade. No entanto, novas pesquisas apontam para um entendimento mais profundo do tema.
A aparente tendência de retorno gradual aos modelos presenciais e híbridos parece estar menos ligada à supervisão e mais conectada à necessidade de **transmitir conhecimento**, **formar novos profissionais** e **construir cultura organizacional**.
Esses desafios se tornaram mais evidentes em um ambiente predominantemente digital, onde a interação e o aprendizado informal podem ser comprometidos. Conforme dados recentes da Gupy, a proporção de vagas 100% remotas em maio de 2026 ficou ligeiramente abaixo da média pré-pandemia, indicando uma mudança de estratégia por parte das empresas.
O aprendizado como principal motor da volta ao presencial
Apesar da demanda contínua dos candidatos por trabalho remoto, que, segundo Guilherme Dias, CMO e cofundador da Gupy, continuam sendo “muito mais disputadas e preenchidas mais rápido do que antes”, as empresas parecem priorizar outras facetas.
Uma pesquisa do Federal Reserve Bank de Nova York revelou que, enquanto profissionais experientes se adaptaram bem ao trabalho remoto, **recém-formados enfrentaram maiores dificuldades de inserção profissional**. A taxa de desemprego entre jovens graduados em ocupações remotas aumentou cerca de um ponto percentual, chegando a 5,8% para a faixa de 22 a 27 anos em 2025.
A explicação, segundo os pesquisadores, reside na **dificuldade de treinamento e orientação de profissionais em início de carreira à distância**. Essa percepção encontra eco nos dados da Gupy, que indicam que setores como comércio, logística e serviços operacionais, onde o aprendizado “fazendo” é crucial, são onde o presencial mais cresceu.
O escritório como ambiente insubstituível para o desenvolvimento
“Se as empresas estão trazendo esse público de volta para o presencial, há uma lógica de formação por trás disso, e não de um simples controle”, afirma Dias. A conclusão é que o desafio atual não é apenas garantir produtividade, mas sim **assegurar a circulação do conhecimento**.
Grande parte do desenvolvimento profissional ocorre fora de treinamentos formais. Acontece em **conversas informais**, na **observação de colegas experientes**, em **reuniões improvisadas** e em **correções em tempo real**. Essas interações, essenciais para a formação, são difíceis de replicar em um ambiente puramente digital.
A Gupy destaca que essas dimensões ganharam importância crescente nas estratégias empresariais. “As empresas estão trazendo as pessoas de volta para **aprender juntas**, não apenas para trabalhar juntas”, pontua Dias. A mentoria informal e a construção de identidade cultural são aspectos que o ambiente digital ainda não conseguiu resolver completamente.
Cultura e pertencimento: pilares da nova dinâmica de trabalho
Estudos da Michael Page e Randstad reforçam essa visão, mostrando que oportunidades de crescimento, aprendizado contínuo e confiança na liderança têm peso semelhante ou superior ao salário na decisão de um profissional permanecer em uma empresa. O trabalho volta a ser visto como um **ambiente de formação**.
Os sinais dessa mudança vão além do RH. A criação de vagas ligadas a edifícios corporativos, como portaria, limpeza e segurança, apresenta saldos positivos acima da média histórica, refletindo a retomada dos espaços físicos. “As empresas não estão só buscando colaboradores para vagas presenciais. Estão investindo no espaço físico do trabalho. Isso é uma decisão de custo intencional”, comenta Dias.
A pandemia demonstrou a viabilidade do trabalho remoto para muitas atividades. Contudo, estudos recentes indicam que **funções essenciais para a formação de profissionais, transmissão de conhecimento e construção de cultura organizacional ainda são difíceis de serem reproduzidas virtualmente**. A volta ao escritório, portanto, parece menos sobre controle e mais sobre garantir que a próxima geração aprenda o que nenhuma plataforma digital consegue ensinar sozinha.

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