Ibovespa sofre com fatores internos e externos, contrastando com alta em Nova York.
O Ibovespa iniciou o último dia de maio em queda, divergindo da performance positiva dos índices de ações ocidentais. Enquanto bolsas americanas mostravam alta discreta impulsionadas por otimismo no setor de tecnologia e expectativas de um cessar-fogo entre Estados Unidos e Irã, o principal índice da bolsa brasileira operava em terreno negativo.
Por volta das 11h43 da sexta-feira, 29, o Ibovespa registrava um recuo de 1,11%, aos 173.126,72 pontos, chegando à mínima de 172.686,36 pontos, um patamar não visto desde o final de janeiro. No acumulado do mês de maio, o índice perdeu 7,56%, em contraste com a alta de 2,50% do Dow Jones.
Essa desvalorização, conforme análise de Pedro Moreira, sócio da One Investimentos, reflete uma mudança na alocação global de capital. Investidores estrangeiros que entraram rapidamente no mercado brasileiro no início do ano estariam agora realocando seus recursos, buscando oportunidades em setores como semicondutores e inteligência artificial no exterior.
PIB robusto levanta dúvidas sobre cortes na Selic
Um dos fatores que pressionam o Ibovespa é a divulgação do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro para o primeiro trimestre. O indicador apresentou altas de 1,1% na margem e de 1,8% no comparativo anual, resultados em linha com as expectativas do mercado. No entanto, essa força econômica levanta preocupações sobre a continuidade dos cortes na taxa básica de juros, a Selic.
Felipe Tavares, economista-chefe da BGC Liquidez, destaca que a persistência do aquecimento na economia, especialmente no consumo das famílias, torna o cenário para a política monetária ainda mais desafiador. Isso sugere que o Banco Central pode manter os juros em patamares mais elevados por mais tempo.
Roberto Padovani, economista-chefe do banco BV, reconhece que o PIB mostra um início de ano positivo para a economia, projetando um crescimento próximo a 2%. Contudo, ele alerta para os riscos, apontando que parte desse crescimento pode ser atribuída a estímulos fiscais e parafiscais do governo federal, o que vai contra o mandato do Banco Central de controlar a inflação.
Decisão dos EUA sobre facções brasileiras gera apreensão no mercado
Outro ponto de atenção para o mercado financeiro foi a decisão dos Estados Unidos de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas internacionais. Segundo Alvaro Bandeira, coordenador de Economia da Apimec Brasil, essa medida afeta os bancos ao aumentar o risco de congelamento de recursos e impor restrições a operações internacionais das instituições financeiras.
As ações de bancos na bolsa brasileira sentiram o impacto, com recuos notáveis, como a Unit do BTG Pactual, que caía 1,73% por volta das 11h37. A menor queda no setor, naquele momento, era de 0,04% para a Unit do Santander.
Tales Barros, líder de renda variável da W1 Capital, pondera que a notícia pode evoluir e impactar as relações diplomáticas e financeiras entre Brasil e EUA. Caso isso ocorra de forma mais expressiva, o mercado poderá passar a precificar esses riscos de maneira mais relevante, intensificando a pressão sobre o Ibovespa.
Petróleo em baixa e cenário global complexo
A desvalorização do Ibovespa também é influenciada pela queda nos preços do petróleo. Embora o recuo tenha diminuído de quase 2% para 0,88% ao longo da manhã, a tendência de baixa no barril de petróleo impacta diretamente as ações de empresas do setor energético brasileiro, que têm peso relevante no índice.
Em suma, a combinação de um PIB forte que dificulta a queda dos juros, a incerteza gerada pela decisão dos EUA sobre as facções brasileiras e um cenário global de realocação de investimentos criam um ambiente desafiador para o Ibovespa, que se descolou da performance positiva das bolsas internacionais.

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