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ToggleLula no quarto mandato: O desafio de reconquistar a confiança fiscal após campanha de gastos
Luiz Inácio Lula da Silva (PT) inicia seu quarto mandato presidencial com um dos maiores desafios de sua carreira política: **restaurar a credibilidade fiscal do Brasil**. A gestão que se inicia vem sob o olhar atento de analistas e agentes de mercado, que demonstram desconfiança após uma série de medidas eleitoreiras que aumentaram os gastos públicos e reduziram as receitas do governo.
Essas ações, implementadas durante o período eleitoral, acendem um alerta sobre a sustentabilidade das contas públicas nos próximos quatro anos. A preocupação com o cenário fiscal não é nova, e já existia mesmo antes das promessas de campanha, indicando um caminho árduo para o presidente.
O próprio Tesouro Nacional já havia sinalizado, em junho, que a estratégia econômica para atingir um resultado primário positivo até 2030 se tornaria insustentável a partir de 2028 sem novas medidas. A equipe econômica de Lula, por sua vez, apresentou sinais mistos sobre o compromisso fiscal, defendendo o arcabouço atual, mas reconhecendo a necessidade de ajustes. Conforme informação divulgada pelo IFI, ligada ao Senado, o diretor-executivo Marcus Pestana afirmou que o presidente “terá que fazer o dever de casa”.
Dívida bruta em alta e a necessidade de superávit
A **dívida bruta do governo geral** já atingiu 82,9% do PIB durante a gestão de Lula, um aumento de mais de 10 pontos percentuais. Segundo a metodologia do FMI, esse indicador está cerca de 20 pontos percentuais acima da média das economias emergentes, o que explica o prêmio de risco exigido pelos investidores. Para estabilizar essa escalada, o Citi estima a necessidade de um superávit primário de 3,3% do PIB, o que representa um esforço de consolidação fiscal de aproximadamente 4% do PIB, considerando o atual déficit de 0,5%.
Durante a campanha, a equipe de Lula se comprometeu a um ajuste fiscal gradual de cerca de 2% do PIB, com revisão de incentivos tributários e possível consolidação de programas sociais. Contudo, a sustentabilidade desse plano ainda é incerta, especialmente após medidas como o reajuste do Bolsa Família e a extinção de taxas, além de promessas como tarifa zero no transporte e acesso a medicamentos. A manutenção de aumentos reais do salário mínimo, que impactam aposentadorias, também turva a perspectiva de ajustes significativos.
Felipe Salto, economista-chefe da Warren Investimentos, avalia que o quadro se tornou mais complexo com as “medidas expansionistas das últimas semanas”. Ele defende o fortalecimento do arcabouço fiscal, a redução da variação de gastos públicos, o corte de gastos tributários e de emendas parlamentares.
Congresso à direita e o desafio da articulação política
Lula enfrentará um **Congresso Nacional com maior inclinação à direita**. Embora o presidente afirme estar acostumado a contornar essa situação através do diálogo, críticos apontam uma menor disposição à articulação no mandato atual, com o Congresso demonstrando resistência a iniciativas que elevariam a carga tributária. A aprovação de nomes para postos-chave também foi um obstáculo, evidenciando as dificuldades políticas que podem persistir.
O mercado reagiu positivamente à percepção de um possível governo com maior compromisso fiscal após o primeiro turno, mas a vitória de Lula pode reverter esses ganhos. No entanto, Marcus Pestana, do IFI, acredita que o movimento do mercado pode ser de curto prazo se o presidente apresentar um plano fiscal consistente e crível, pois “ninguém rasga dinheiro, o pessoal (do mercado) é pragmático”.
Juros altos, inflação e o aperto no bolso do brasileiro
Um plano fiscal sólido é visto como essencial para influenciar positivamente o comportamento da **inflação**. Apesar da meta de 3% desde 2024, o índice tem se mantido acima do centro da meta, com expectativas de mercado elevadas. O Banco Central iniciou um ciclo de afrouxamento monetário, mas as projeções indicam que os juros permanecerão em dois dígitos pelos próximos anos.
O Brasil continuará operando com uma das **taxas de juros reais mais altas do mundo**, e uma queda mais significativa dependerá de uma política fiscal menos expansionista. O plano de governo de Lula menciona a criação de condições para a redução sustentada dos juros, mas a operacionalização ainda é incerta. Cassiana Fernandez, do JP Morgan, adverte que, sem uma mudança clara na direção da política econômica e uma consolidação fiscal crível, as expectativas de inflação continuarão sob pressão.
O presidente também terá que lidar com o **número recorde de quase 84 milhões de brasileiros inadimplentes** e 9,3 milhões de empresas com contas em atraso. A sensação de que a renda disponível está sendo comprimida pela dívida em um ambiente de juros altos explica o mal-estar econômico, apesar de indicadores positivos como o baixo desemprego. Ações como o programa Desenrola e o perdão de débitos tributários para MEIs foram anunciadas, mas analistas apontam que não resolvem o problema de forma estrutural.

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