Promessas de transparência na Venezuela contrastam com acordos secretos e corrupção no setor petrolífero.
Autoridades dos Estados Unidos e da Venezuela anunciaram uma nova era de prestação de contas para a lucrativa indústria petrolífera venezuelana após a queda do presidente Nicolás Maduro. O presidente Donald Trump afirmou que os EUA controlariam as vendas de petróleo do país, com a Venezuela enviando orçamentos mensais à Casa Branca e auditores contratados para conferir comprovantes.
A nova líder venezuelana, Delcy Rodríguez, também prometeu que o público poderia rastrear cada dólar do petróleo em um novo site. No entanto, nenhuma dessas iniciativas lançou luz sobre o destino do dinheiro do petróleo venezuelano até o momento, gerando questionamentos sobre a vontade política em Washington e Caracas.
Mesmo com boas intenções, o plano de Washington para detalhar como e onde as riquezas petrolíferas da Venezuela estão sendo gastas seria uma tarefa monumental. Décadas de desvio de recursos deixaram a indústria petrolífera venezuelana opaca e profundamente corrupta, um problema que Rodríguez, em sua função anterior à frente da economia nacional, não conseguiu resolver.
Conforme documentos internos e estatísticas oficiais, no início desta década, para cada US$ 2 obtidos com a venda de petróleo, US$ 1 era desviado. As apostas são ainda maiores hoje, com Trump dependendo da demonstração de Estado de Direito para atrair US$ 100 bilhões em investimentos americanos no potencial petrolífero venezuelano.
A herança de corrupção e o papel de Carlos Malpica Flores
Durante os 13 anos de governo de Maduro, a estatal petrolífera PDVSA se tornou praticamente um patrimônio familiar, permitindo que parentes e aliados vendessem petróleo em condições altamente preferenciais. Esse sistema de favorecimento garantiu a lealdade ao regime.
Esquemas opacos de comercialização de petróleo continuaram até a queda de Maduro, e alguns beneficiários seguiram discretamente negociando com a PDVSA sob Rodríguez, segundo documentos internos e entrevistas com autoridades do setor. Essas negociações questionáveis desafiam sua promessa de romper com as políticas econômicas de Maduro.
Documentos até então não divulgados revelam a dimensão da corrupção nos últimos anos de Maduro. Eles mostram o papel central de Carlos Malpica Flores, parente de Maduro, descrito como o guardião da riqueza da família. Malpica foi sancionado pelos EUA em dezembro por facilitar a corrupção do regime.
Vendas milionárias sem pagamento e empresas de fachada
Documentos da PDVSA indicam que empresas de fachada controladas por Malpica e outros empresários próximos a Maduro exportaram petróleo no valor de US$ 11 bilhões em 2021 e 2022 sem pagar à estatal. Esse montante representou metade de todas as receitas petrolíferas da Venezuela nesses dois anos, segundo estatísticas do banco central.
Essas vendas fora dos registros oficiais parecem ter violado a legislação venezuelana, que atribuía à PDVSA a guarda exclusiva da riqueza petrolífera do país. Apesar das sanções e da queda de Maduro, Malpica continua lucrando com suas empresas que operam campos de petróleo e prestam serviços à PDVSA.
Acordos controversos e a promessa de transparência não cumprida
Em 2023, uma empresa de fachada ligada a Malpica, a Hangzhou Energy, registrada na China, tornou-se a segunda maior exportadora de petróleo bruto da Venezuela. Contratos mostram que a Hangzhou recebeu petróleo da PDVSA em condições altamente favoráveis em troca de fornecer “ajuda humanitária”, um esquema semelhante a acordos de “petróleo por alimentos” que drenaram bilhões de dólares do Estado.
O site de prestação de contas da indústria petrolífera, “Transparent Sovereignty”, prometido por Rodríguez, exibe apenas um registro de venda de US$ 300 milhões em óleo combustível em março, sem detalhar quem comprou ou por quanto. A falta de detalhes nesses registros alimenta as dúvidas sobre a real transparência na gestão do petróleo venezuelano.
O futuro incerto da indústria petrolífera venezuelana
A história de Malpica simboliza a transformação da economia venezuelana em um feudo pessoal da família Maduro, um sistema que, em parte, persiste. Apesar das promessas de auditorias e fiscalização, a opacidade e os acordos questionáveis na indústria petrolífera venezuelana continuam a ser um grande desafio.
A capacidade de Rodríguez de romper com as práticas passadas e garantir que os benefícios do petróleo cheguem a todos os venezuelanos será crucial para suas chances eleitorais e para a estabilidade do país. A falta de clareza sobre os fluxos financeiros do petróleo levanta sérias preocupações sobre a governança e o futuro da Venezuela.

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