Venezuelanos usam WhatsApp para encontrar vítimas de terremoto em meio ao silêncio oficial
A comunicação em massa via WhatsApp se tornou uma ferramenta vital para venezuelanos que buscam notícias de entes queridos após os recentes terremotos que devastaram a costa caribenha do país. Em meio a informações oficiais limitadas, grupos no aplicativo se transformaram em redes improvisadas de resposta a emergências.
Milhares de pessoas, tanto na Venezuela quanto na diáspora, recorrem a esses grupos para compartilhar informações sobre desaparecidos, edifícios danificados e operações de resgate. A urgência e a falta de dados concretos das autoridades impulsionam a colaboração voluntária.
Essas redes não oficiais funcionam como um registro dinâmico de desaparecidos, onde voluntários compilam dados de hospitais, verificam relatos e ajudam a rastrear a localização de pessoas. Conforme informações divulgadas por veículos de comunicação, a iniciativa surge como resposta direta a um “vazio ensurdecedor de informações por parte do governo”.
A força da colaboração digital em tempos de crise
As mensagens fluem incessantemente em grupos que reúnem centenas de pessoas. Pedidos como “Alguém viu este homem? É meu avô. Ele morava no Residencias Caribe. Não temos notícias dele desde quarta-feira” são comuns. Outros buscam listas de desaparecidos de edifícios específicos, como “Alguém pode enviar a lista mais recente de desaparecidos do Residencias Vista Mar, em Playa Grande? Estou procurando minha madrinha.”.
Esses grupos se tornaram essenciais para preencher o vácuo deixado pela falta de comunicação oficial. Carlos Delgado, pesquisador de comunicação da Universidad Católica Andrés Bello, destaca que “esses grupos de WhatsApp surgem por pura necessidade, mas também pela disposição das pessoas em colaborar”. A falta de informações governamentais força os cidadãos a se organizarem.
Compartilhamento de fotos e vídeos para identificação
Fotos de pessoas de todas as idades, casais, avós com netos e idosos sozinhos são compartilhadas, muitas vezes acompanhadas de listas manuscritas de pacientes em hospitais. Mensagens de voz de locais de resgate e vídeos, mesmo os mais explícitos, têm auxiliado na identificação de parentes desaparecidos há dias. Embora alguns membros rejeitem imagens mais chocantes, outros as consideram cruciais para encontrar seus entes queridos.
Jeffrey Ramos, um venezuelano que vive no Chile, transformou sua participação nesses grupos em uma missão de tempo integral. Ele ajudou a reconstruir o paradeiro de uma família que buscava a manicure de sua cunhada, confirmando a morte da mãe e dos três filhos no desabamento do Residencias Caribe. Ramos estima ter ajudado a identificar pelo menos 10 vítimas desde então.
Desespero e esperança em cada notificação
Para famílias angustiadas, cada notificação no WhatsApp traz a esperança de uma notícia, mas também a possibilidade de uma tragédia. O número de mortos já ultrapassa 1.450, segundo dados oficiais. Hazel Gonzàlez, que vive em Carabobo, relata ter entrado em diferentes grupos para buscar amigos desaparecidos em La Guaira, e infelizmente, três deles foram encontrados mortos. Ela também conseguiu reunir uma criança com sua família.
Gaby Gil, em Caracas, descreve a dinâmica como “uma corrente de favores”. Ela ainda procura o pai e a tia de uma amiga em um bairro onde as equipes de resgate ainda não chegaram. A frustração com a resposta governamental é palpável, com muitos participantes expressando descontentamento com a organização das operações. O governo anunciou a criação de um site e uma linha telefônica para monitorar desaparecidos e oferecer apoio psicológico, mas muitos acreditam que a realidade é mais grave do que os números oficiais.
A busca por respostas em meio à incerteza
Paula Onorato, nos Estados Unidos, busca uma sobrinha e amigos de sua sobrinha. Ela ressalta que, embora as informações no WhatsApp nem sempre sejam precisas, elas servem como um ponto de partida crucial. “Infelizmente, não há informação oficial, e isso nos deixa a todos desesperados”, afirma. Ela admira a capacidade de improviso dos venezuelanos em ajudar uns aos outros.
Delgado pondera que, embora as redes sociais sejam “uma forma fantástica de alinhar esforços voluntários durante uma emergência”, elas “não são tão eficazes para organizar a resposta em si”, pois isso exige liderança, algo que, segundo ele, está faltando. O Ministério da Informação da Venezuela não respondeu imediatamente a um pedido de comentário. A presidente interina, Delcy Rodríguez, agradeceu às equipes de resgate e prometeu manter os esforços nas áreas afetadas.

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