Trustee DTVM, ligada ao Banco Master, sob escrutínio em nova fase da Operação Carbono Oculto
A “Operação Fluxo Oculto”, desdobramento da “Operação Carbono Oculto”, trouxe à tona uma nova rede de fundos de investimento suspeita de envolvimento em ocultação patrimonial e lavagem de dinheiro. Segundo a Justiça de São Paulo, esses fundos teriam sido utilizados para dissimular recursos provenientes do desvio de nafta petroquímica e adulteração de combustíveis.
No centro da investigação, a Trustee DTVM, que já havia sido mencionada na primeira fase da operação em 2025, aparece como custodiante de dois dos principais fundos atingidos. Esses fundos, responsáveis pelos maiores bloqueios judiciais, compartilham a mesma custodiante e estão ligados ao ambiente operacional do Banco Master, levantando sérias questões sobre as movimentações financeiras.
A decisão judicial determinou o bloqueio de aproximadamente R$ 85 milhões do Zeus FIDC, R$ 72 milhões do Gran Capital FIDC-NP e R$ 47 milhões do FIDC DB Crédito Global. As investigações apontam que estes fundos operavam sob uma “aparência legal”, com operações de baixo deságio, liquidações rápidas e pouquíssimos cotistas, características que indicam uma possível estrutura para lavagem de dinheiro.
Fundos Suspeitos e a Rede Financeira Investigada
O juízo identificou que os fundos Zeus e Gran Capital concentraram parte significativa das movimentações consideradas suspeitas. Empresas como Petrodansk, Saara, Petroriente, Tercom, Arujá Terminais, Nova Rubília, Pix Card e Atena FIP foram citadas no fluxo investigado. A investigação sugere que essa engrenagem financeira teria sido utilizada por organizações criminosas para circular e ocultar recursos obtidos no mercado ilegal de combustíveis.
A “Operação Carbono Oculto”, iniciada em 2025, apura suspeitas de lavagem de dinheiro ligada ao PCC (Primeiro Comando da Capital) por meio de distribuidoras de combustíveis, fintechs e fundos de investimento. Na primeira fase, a Receita Federal e a Polícia Federal indicaram que o grupo movimentava bilhões de reais em operações incompatíveis com suas atividades econômicas declaradas, utilizando fintechs e estruturas financeiras como camadas de ocultação patrimonial.
Trustee DTVM: Conexões e Crescimento Expressivo dos Fundos
A Trustee DTVM figura como custodiante dos fundos Zeus FIDC e Gran Capital FIDC, que juntos somam os maiores bloqueios determinados pela Justiça. A custodiante é responsável por guardar, registrar e controlar os ativos financeiros de uma carteira, além de validar direitos creditórios. Essa centralidade da Trustee nos fundos bloqueados reforça a importância da instituição na investigação.
Registros da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) revelam que os fundos citados na decisão judicial compartilham gestores, auditorias e prestadores de serviço. O Zeus FIDC, por exemplo, tem administração da Actual DTVM, gestão da Ello Gestora de Recursos e auditoria da BGM Auditores, além da custódia da Trustee. O Gran Capital FIDC possui a mesma administradora, auditoria e custodiante, mas com gestão da Libertas Asset.
A Libertas Asset, gestora do Gran Capital, também possui um elo histórico com o entorno do Banco Master, tendo administrado o Raydan Invest FIDC-NP, fundo cancelado em 2023 que tinha a Master S/A Corretora como administradora e custodiante. Essa conexão estabelece uma ponte documental entre a Libertas e estruturas anteriormente ligadas ao conglomerado financeiro.
Crescimento Acelerado e Empresas do Setor de Combustíveis no Radar
Os dados da CVM mostram um crescimento expressivo dos fundos sob investigação nos últimos anos. O Zeus FIDC saltou de R$ 17,5 milhões em dezembro de 2020 para R$ 89,8 milhões em abril de 2026, atingindo um pico de R$ 112 milhões em agosto de 2025. O Gran Capital FIDC cresceu de R$ 10,2 milhões em dezembro de 2022 para R$ 74,4 milhões em abril deste ano.
Empresas do setor de combustíveis aparecem com relevância entre os cedentes dos fundos. No Gran Capital, constam Petrodansk Indústria e Comércio de Hidrocarbonetos e Danpetro Distribuidora de Petróleo. Em novembro de 2025, o fundo registrava cerca de R$ 42,5 milhões em operações vencidas e inadimplentes. O DB Crédito Global também tem a Petrodansk como cedente recorrente.
Trustee DTVM e sua Relação Anterior com a Justiça
A Trustee DTVM não é novata em investigações. Na primeira fase da “Operação Carbono Oculto”, em 2025, a instituição já foi alvo da Polícia Federal. Pouco antes, a financeira havia renunciado à administração de diversos fundos citados nas investigações, alegando questões de compliance. A instituição pertence a Maurício Quadrado, sócio de Vorcaro, que deixou o Master em 2024, e também é apontada como pertencente ao empresário Nelson Tanure.
A Banvox DTVM, veículo de investimento de Vorcaro e Quadrado no Banco Master, também apareceu na primeira fase da operação. Embora os documentos públicos não permitam concluir um controle comum entre todas as estruturas analisadas, a repetição de gestores, custodiante, auditorias e operadores já presentes em estruturas associadas ao entorno do Banco Master é notória nos registros da CVM.
A reportagem buscou contato com a Trustee DTVM, mas não obteve resposta até a publicação deste texto. O espaço permanece aberto para manifestação da empresa.

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